O kit do entregador: o que aguenta 10 horas por dia (e o que a moto cobra por isso)
O kit de quem vive da moto: o que comprar primeiro, o que olhar a cada turno e quanto a moto cobra por km no ritmo de 3.000 km por mês.
Publicado Atualizado Equipamento
9 min de leituraPor Sergio Arantes

A lista de "equipamentos essenciais para entregador" que circula por aí é vitrine de loja. Ela mostra o baú, a mochila e o suporte de celular. O que ela não mostra é a conta. Quanto a jornada de dez horas acelera o desgaste, e quanto sobra por km depois de a moto cobrar a parte dela.
Este guia organiza o que esta casa já mediu e publicou, com fonte e data em cada linha. Não é veredito de teste de longa duração: veredito exige quilometragem declarada, e isso vem nos próximos meses.
O que se leva: quem roda 8 a 12 horas por dia comprime todos os intervalos de manutenção. A parada de 6.000 km, que o comum encontra em meses, vence em poucas semanas de aplicativo. O kit começa pelo que a lei manda e a evidência sustenta: capacete certificado e luvas. Só depois entra o que faz o trabalho render. No ritmo de 3.000 km por mês, a moto custa cerca de R$ 0,38 por km. O pneu dura 8 a 12 mil km, não 18 a 20 mil. De um repasse de R$ 1,50 por km, sobra cerca de R$ 1,12, antes de imposto, taxa e do seu tempo.
A resposta direta: o que entra no kit, em que ordem
A ordem do kit não é a da loja. Primeiro vem o que a lei exige e a evidência sustenta. Depois, o que faz o serviço render. Por último, o conforto.
Essa fila tem um motivo simples. Capacete e luvas protegem o seu corpo numa queda, e você usa os dois em todo turno. Baú e capa de chuva mudam quanto você entrega e em que condição. Os dois grupos custam parecido; o que muda é o que está em risco.
| Camada | O que entra | Critério de escolha | Por que nessa posição |
|---|---|---|---|
| Segurança | Capacete certificado e afivelado, viseira ou óculos de proteção | Selo de certificação, cinta jugular travada, viseira sem película | É o único item que a lei exige (CTB, art. 54) |
| Segurança | Luvas | Palma reforçada, fechamento no punho | Maior ganho medido por real gasto (de Rome, 2011) |
| Trabalho | Baú ou bagageiro, capa de chuva | Fixação por parafuso no bagageiro, vedação real na chuva | Decide quanto e como você entrega |
| Trabalho | Suporte de celular | Amortecimento da vibração do guidão | O aplicativo é a ferramenta de trabalho |
| Bordo | Calibrador, spray de corrente, pano | Calibrador próprio, spray seguro para retentor | Evita o dia parado na oficina |
A fila de compra completa desta casa, com capacete, luvas, jaqueta, botas e calça, está no guia de equipamento. Do segundo item em diante, a ordem é opinião desta casa. Nenhuma regra manda comprar nessa sequência.
A jornada de 10 horas comprime a mecânica
Rodar 8 a 12 horas por dia faz a quilometragem de revisão chegar três a quatro vezes mais rápido. A parada de 6.000 km, que o usuário comum encontra em meses, pode vencer em poucas semanas de aplicativo.
O manual da sua moto já prevê isso. Quem roda em terra, poeira, chuva diária ou sempre com carga tem uma régua própria, a de uso severo, com intervalos encurtados. Procure essa seção antes de seguir o calendário padrão.
Tem outra conta que pega o entregador de lado. Peça de desgaste fica fora do plano de revisão pago: pneu, pastilha, relação e bateria correm por fora, direto do seu bolso. São as peças que a jornada come mais rápido.
O pneu mostra bem o tamanho dessa diferença. No uso normal, um par dura 18 a 20 mil km. No motofrete, a mesma faixa de mercado entrega 8 a 12 mil km.
Foram 11.579 notificações de acidentes de trabalho de motofretistas em 2025, contra 9.987 em 2024 e 8.582 em 2023, alta de 34,9% no período (Sinan/MPT, 2026). Esses dados não dizem quantas ocorrências têm relação com a condição mecânica das motos, e eu não vou inventar esse nexo. O que eles dizem é que a categoria virou risco de saúde pública.
A régua completa por peça, com os intervalos de cada parada, está no manual de manutenção de quem roda.
O kit de segurança: o que não é negociável
Só um item do kit é obrigatório por lei: capacete certificado, afivelado pela cinta jugular, com viseira ou óculos de proteção (CTB, art. 54; Resolução CONTRAN 940/2022). Rodar sem ele é infração gravíssima, com multa e suspensão da CNH (art. 244, I).
Entre os que a lei não exige, as luvas vêm primeiro na fila desta casa. O motivo é medido: luvas cortam o risco de hospitalização em 59% numa amostra de motociclistas acidentados (de Rome, 2011). É o maior retorno por real gasto que a evidência mostra.
A penalidade de cada item e os números do capacete estão na matriz legal do equipamento. Não vou repetir aqui o que já está lá com fonte.
Quem trabalha na moto tem uma camada extra de regra. Serviço remunerado tem exigência própria de equipamento, incluindo colete refletivo, e isso está no guia do mototáxi por app.
O kit de trabalho: baú, capa de chuva e suporte
Aqui esta casa ainda não tem número medido, e prefiro dizer isso a repetir promessa de fabricante. O que dá para afirmar hoje é o critério de escolha e o que a jornada cobra de cada peça.
Comece pelo baú. A fixação é o que importa: preso ao bagageiro por parafuso, ele aguenta o tranco da rua, e elástico com fita não é fixação. Carga também muda a moto. Na CG 160, a pressão do pneu traseiro sai de 200 para 225 kPa conforme o peso (manual do proprietário, 2019). Baú cheio pede o valor de cima.

Na capa de chuva, olhe a vedação. A de emergência rasga na terceira dobra, e chuva diária ainda encurta o intervalo da corrente, como mostra a rotina abaixo.
No suporte de celular, o inimigo é a vibração do guidão. A câmera sente primeiro. Esse assunto tem página própria a caminho.
Os preços destas peças estão em coleta e entram aqui na próxima atualização, com data. Prefiro a lacuna declarada ao número inventado.
O kit de bordo do turno (e a rotina que cabe no dia)
São dois minutos com a moto ainda fria, antes de ligar. Leva menos tempo do que uma corrida curta e evita o dia parado na oficina.
| Quando | O que olhar | Referência |
|---|---|---|
| Antes do turno | Pressão dos dois pneus, com pneu frio | Verificar ao menos uma vez por mês, com a moto parada há 3 horas (NHTSA) |
| Antes do turno | Alvo da CG 160: 175 kPa na dianteira, 200 a 225 kPa na traseira conforme carga | Manual do proprietário, 2019 |
| A cada 250 a 350 km | Folga da corrente | Faixa para uso intenso (Suhai, 13/11/2025) |
| A cada 500 a 1.000 km, ou toda semana | Limpar e lubrificar a corrente, encurtando na chuva e na terra | Motul, 2026 |
| A cada parada de manual | Óleo e filtro, com o intervalo comprimido pela jornada | Manual, seção de uso severo |
Duas ressalvas sobre a corrente. Use spray próprio para corrente com retentor: para essa tarefa, a própria WD-40 indica o produto específico, não o multiuso. E, no uso de entrega, fique no piso da faixa de ajuste, os 250 km, não no teto.

O passo a passo de cada tarefa está nos guias dedicados: corrente, troca de óleo e o kit de ferramentas mínimo para fazer isso em casa.
Bateria fica fora deste guia de propósito. Ela tem página própria, com duração e o que mata uma bateria antes da hora.
A conta do mês: o que a moto cobra de quem roda 3.000 km
No ritmo de motofrete, 3.000 km por mês, a CG 160 sai por cerca de R$ 0,38 por quilômetro. Quem roda 1.000 km paga cerca de R$ 0,52. Rodar mais baixa o custo por km, porque o custo fixo se dilui em mais quilômetros.
O pneu, como já vimos, é a peça que mais sente a jornada: o custo dobra de R$ 0,03 para cerca de R$ 0,06 por km. Mesmo assim, quem roda 3.000 km paga menos por quilômetro do que quem roda mil. As faixas de preço saem da conta completa do custo por km.
Agora a pergunta que todo entregador faz: quanto sobra. O iFood declara remuneração média de R$ 29 por hora ativa, dado da própria empresa referente a 2025. Na medição independente, a PNAD Contínua do IBGE encontrou rendimento médio de R$ 2.340 por mês entre os 274 mil entregadores por aplicativo. A jornada média foi de 46,4 horas semanais no terceiro trimestre de 2024 (Agência IBGE).
O componente de distância pago pelo iFood gira em torno de R$ 1,50 por km, valor de reportagem de 2021 atualizada em 2024. Confirme o número vigente no seu app antes de fechar a conta.
De um repasse de R$ 1,50 por km, a moto consome cerca de um quarto. Sobram R$ 1,12 por km, antes de imposto, taxa de aplicativo e do valor do seu tempo. Esse "antes" pesa: imposto, taxa e as horas que você não fatura saem todos desse R$ 1,12.
Rode a conta com o seu número na calculadora de custo por km. Ela abre com a CG 160 em São Paulo e aceita o seu km por mês, o seu preço de gasolina e a sua vida de pneu.
O que fica de fora do kit
Marca e modelo ficam de fora. Esta casa não tem base para recomendar um baú, uma capa de chuva ou um suporte específico hoje. Veredito exige quilometragem declarada, e o que tenho até aqui é critério.
Selo de "melhor compra" também fica de fora, porque a coleta de preços está em aberto.
E o acessório que resolve um problema que a jornada não tem. Antes de comprar o terceiro suporte, veja se a corrente está no ponto e o pneu na pressão, porque é aí que o dia para.
Perguntas frequentes
O que um entregador de aplicativo precisa ter na moto?
Por lei, capacete certificado e afivelado, com viseira ou óculos de proteção (CTB, art. 54). Por evidência, luvas em seguida. Depois, o kit de trabalho por função: baú com fixação por parafuso, capa de chuva com vedação real e suporte de celular que aguente a vibração do guidão.
Quanto custa manter uma moto de entrega por mês?
No ritmo de 3.000 km por mês, cerca de R$ 0,38 por km numa CG 160 em São Paulo, o que dá aproximadamente R$ 1.140 no mês. A conta inclui combustível, pneu com vida curta de motofrete, revisão, seguro, licenciamento e depreciação.
Baú ou mochila: o que vale mais para entrega?
O critério é fixação e carga, não marca. Baú preso ao bagageiro por parafuso tira o peso das suas costas e não muda de lugar na freada. Em troca, exige atenção à pressão do pneu traseiro, que sobe de 200 para 225 kPa conforme a carga na CG 160.
De quanto em quanto tempo o entregador precisa revisar a moto?
Comprima os intervalos do manual em três a quatro vezes em relação ao uso comum, e siga a seção de uso severo. Na prática, a parada de 6.000 km pode chegar em poucas semanas de aplicativo.
Quanto sobra de verdade entregando de moto?
De um repasse de distância em torno de R$ 1,50 por km, a moto consome cerca de R$ 0,38. Sobram aproximadamente R$ 1,12 por km, antes de imposto, taxa de aplicativo e do valor do seu tempo.
O que fazer antes do próximo turno
Cada dia de oficina é dinheiro que não entra. Adiar a preventiva pra não perder uma diária costuma sair mais caro do que a peça que você deixou de trocar.
A vistoria de dois minutos, amanhã, antes de ligar a moto:
- Calibre o pneu dianteiro com a moto fria, parada há pelo menos 3 horas. Na CG 160, o alvo é 175 kPa.
- Calibre o traseiro conforme a carga do dia: 200 kPa vazio, 225 kPa com baú cheio.
- Olhe a folga da corrente e ajuste antes de sair, se estiver fora. No motofrete isso volta a cada 250 km.
Depois abra a calculadora com os seus números e veja quanto a sua moto cobra por km. Sem esse número você sabe quanto faturou, mas não quanto ganhou.
Se você está entrando agora na categoria, o custo da habilitação e o planejamento inicial estão no guia da CNH A sem autoescola.
Guia atualizado em
03/09/2026. Os preços do kit de trabalho e o teste de longa duração das peças entram nas próximas atualizações, com data e quilometragem declaradas.